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| Ilustração: Vladimir Manyukhin |
No meio da estrada para a capital
do Reinado, havia uma estalagem.
A “Pata do Ganso” fora fundada
por uma humana refugiada de Trebuk, dona Anniah Lindholm, há 14 longos anos
atrás. Dona Anniah fora forçada a fugir de seu reino natal por causa da
tempestade rubra, e vagou com sua família até aquele ponto, onde erguera uma
casa simples, e recomeçara sua vida com seus sete filhos.
A fama de sua comida fez crescer
com os anos uma pequena vila ao redor da “Pata de Ganso”, clientes fiéis que
começaram a trabalhar nas plantações mais próximas, só para poder comer todos
os dias na estalagem incrível.
A localização da “Pata de Ganso” não
poderia ter sido melhor escolhida. Ficava bem no meio da estrada para a
capital, há cerca de dois dias de viagem, era parada certa para comerciantes e aventureiros
que vinham para o reino ou que saiam dele. E por sorte ou pelo acaso, ou pela
pela forte chuva que começou a cair naquela tarde, a Companhia de Karter viu-se
forçada a parar naquele estabelecimento para passa a noite que já iria cair em
pouco tempo.
A porta abre tocando os sinos que
estão presos na parte superior. Karter Norman, um humano mago, alto e esguio
surge através da porta. Logo após, os outros integrantes da Companhia de Karter
entram no pequeno salão um a um, atraindo os olhares da clientela. Karter
encontra uma mesa livre, a um canto da estalagem, e seus companheiros se unem a
ele. O assento mais próximo da porta foi ocupado por um anão, Signus
Ironshield, todo coberto de armadura que mal dava para ver algum resquício de
pele. A sua direita sentou-se Laurelyn Vesta, uma humana de cabelos louros e
tom de pele tão clara que parecia uma albina. Por último sentou-se Diane Li, uma
pequenina halfling, de cabelo castanho curto e vestindo um colete com dezenas
de bolsos, cada um para uma situação.
O ambiente dentro da estalagem é
diferente do exterior. Do lado de fora parece ser uma estalagem normal, com
pessoas cantando e festejando. Os clientes presentes estão conversando, porém
muito baixo, quase cochichando. Karter tem a impressão de algo implícito paira
no ar, uma sensação de algo de errado, mas de difícil percepção. Outros freguêses
o encaram quando cruzam os olhares, e aquilo dá arrepios nele.
Seus colegas iniciaram novamente
uma conversa alegre, o anão tirou o capacete para poder conversar. As risadas e
o tom alegre destoaram do ambiente, até que um garçom aproximou-se e deu fim ao
falatório. Era um homem careca e alto, magro, com diversas manchas vermelhas em
sua pele. Algo em sua aparência não agrada muito a quem está vendo.
— Sejam bem-vindos ao Pata de
Ganso, o que vocês gostariam de beber? — Perguntou o garçom ao grupo, em um tom
de voz vagaroso que apenas refletia sua aparência.
Ao olhar para seus colegas,
Karter Norman percebeu que alguns deles estavam boquiabertos com a aparência do
garçom. Aproveitando-se de posição de liderança e sua experiência como parte da
nobreza, o jovem mago rapidamente faz o pedido, tentando chamar a atenção do
grupo para evitar um embaraço de etiqueta, antes que o garçom perceba a gafe.
— Por favor, uma cerveja para
cada — Karter Norman começou a fazer os pedidos para seus companheiros. —, e
qual a especialidade da casa?
O atendente anota o pedido das
bebidas vagarosamente, e responde a pergunta na mesma velocidade.
— Temos uma Sopa de Ganso, nosso
prato mais apreciado.
Karter olha rapidamente para o
grupo, que ainda está encarando o garçom. Antes que o atendente começa a
desviar o olhar para os outros integrantes, o mago dispara.
— Vamos querer a sopa, então.
Para os quatro. Obrigado.
O garçom anota com toda sua
velocidade. Pergunta se desejam mais alguma coisa, e com a negativa vira-se
para a cozinha da estalagem. Karter fica cuidando o movimento do atendente e
espera até que ele saia do campo de visão, e que possa falar com seu grupo.
O mago inclina-se para frente e
chama a atenção de seus colegas, cochichando.
— Vocês estão malucos? Vão deixar
o pobre homem constrangido — Disse Karter. Como líder do grupo, puxou para si a
responsabilidade de ser o rosto e a voz da Companhia de Karter, que não à toa
leva seu nome, um misto de vaidade e falta de criatividade.
— Tem algo estanho com ele,
aquelas manchas vermelhas não são normais. — Disse o anão Signus Ironshield,
com toda sua desconfiança e senso de segurança. Não atoa era sempre o mais precavido,
sempre atento às rotas de fuga e à segurança do grupo.
— Mas isso é problema dele, não
nosso! — Responde Karter, com um tom sério. Ele imaginava que isso seria fruto
da paranoia de Signus. Mas não esperava que as outras integrantes também
concordassem.
— Aí é que está, dá uma olhada em
volta e veja você mesmo. Ele não é o único. — Disse Diane Li, a halfling tinha
uma percepção apurada através de muito treinamento. Karter sabia que podia
confiar em seu julgamento.
— Os rostos das outras pessoas
também possuem manchas avermelhadas — A clériga do grupo, Laurelyn Vesta,
também deu seu parecer. —, talvez seja algum tipo de doença, ou pior, uma
maldição.
O garçom volta com as cervejas e
deposita elas na mesa. Desta vez, Karter consegue perceber melhor as manchas na
pele do homem. O desconforto que sentira quando entrara na estalagem poderia
estar relacionado a este traço em comum com as outras pessoas. Como Laurelyn
dissera, poderia ser algum tipo de doença, ou pior, uma maldição.
O mago se dá por vencido e
finalmente pergunta, ainda em tom baixo.
— Vocês têm razão, acho que era
isso que eu notei quando entramos que estava me deixando com uma pulga atrás da
orelha. Será que isso é contagioso? – Perguntou.
— Teríamos que investigar.
Somente pela aparência é difícil julgar — A clériga Laurelyn responde, já
pensando em algum plano ou magia de proteção. –, poderia ser tanta coisa.
— Vamos é embora, isso sim! —
Disse o anão Signus, sempre precavido.
— Não podemos sair nessa chuva —
Disse Karter para o anão. —, entramos aqui justamente para fugir dela, e ainda
temos mais dois dias de caminhada até a capital do Reinado, a cidade Valkaria.
— Prefiro enferrujar do que ficar
aqui! — Resmungou Signus
— Calma Signus, posso garantir
que isso não é Praga Coral. — Disse a halfling Diane, mencionando a terrível
doença mágica que assola o reino de Lomatubar, reino que agora faz parte do
Império de Tauron, a oeste do Reinado. — Eu já vi pessoalmente, e não é nem um
pouco com o que essas pessoas têm.
— É um problema a menos, mas o
que essas pessoas têm? — Laurelyn indaga. A curiosidade acendendo uma chama no
seu olhar.
A conversa foi interrompida
quando o garçom retornou para o salão trazendo os pratos que Karter solicitou.
Os pratos com a Sopa de Ganso foram postos diante dos companheiros, que se
entreolharam. Havia algo de estranho, algo errado, um sentimento que inundou as
entranhas, mas não havia nada de incomum, apenas a sopa. O garçom se retirou e
ficou olhando para o grupo discretamente de trás do balcão.
Um momento de hesitação. Karter
pegou a colher, mergulhou na sopa e ficou encarando o conteúdo antes de colocar
na boca. Algo lhe causava repulsa, mas não sabia o que era. Preparou-se para
sorver a sopa, como se estivesse prestes a mergulhar em um lago, saltando de um
precipício gigantesco. Fechou os olhos e...
A explosão de sabor inundou a
boca e os sentidos de Karter. Havia algo de fato ali, mas não saberia dizer o
que era, algum tempero especial, talvez. Também não sabia dizer se era bom, ou
ruim, apenas tinha certeza de que aquilo era algo único.
O restante do grupo ficou
aguardando um veredito. Diane estava com uma cara de nojo, enquanto Signus
estava perplexo com a cena.
— É incrível! — Disse Karter para
os outros, incentivando-os a experimentar o prato único. Jamais iriam saborear
tal iguaria novamente.
Os outros mergulharam a colher e
sorveram a sopa. Em instantes, seus pratos terminaram, e pediram outro para o
garçom, que esboçava seu primeiro sorriso.
A noite já caia, e o sono chamava
os companheiros para uma noite de descanso. Karter solicitou quatro camas para
o estalajadeiro, que lhe deu duas chaves. O grupo subiu as escadas e
dividiu-se, Laurelyn e Diane em um quarto, Karter e Signus em outro.
A sensação estranha que tiveram
desaparecera antes de dormirem.
(Continua)


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