terça-feira, 6 de novembro de 2018

A estalagem no meio da estrada - Parte 1

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Ilustração: Vladimir Manyukhin


No meio da estrada para a capital do Reinado, havia uma estalagem.
A “Pata do Ganso” fora fundada por uma humana refugiada de Trebuk, dona Anniah Lindholm, há 14 longos anos atrás. Dona Anniah fora forçada a fugir de seu reino natal por causa da tempestade rubra, e vagou com sua família até aquele ponto, onde erguera uma casa simples, e recomeçara sua vida com seus sete filhos.
A fama de sua comida fez crescer com os anos uma pequena vila ao redor da “Pata de Ganso”, clientes fiéis que começaram a trabalhar nas plantações mais próximas, só para poder comer todos os dias na estalagem incrível.
A localização da “Pata de Ganso” não poderia ter sido melhor escolhida. Ficava bem no meio da estrada para a capital, há cerca de dois dias de viagem, era parada certa para comerciantes e aventureiros que vinham para o reino ou que saiam dele. E por sorte ou pelo acaso, ou pela pela forte chuva que começou a cair naquela tarde, a Companhia de Karter viu-se forçada a parar naquele estabelecimento para passa a noite que já iria cair em pouco tempo.
A porta abre tocando os sinos que estão presos na parte superior. Karter Norman, um humano mago, alto e esguio surge através da porta. Logo após, os outros integrantes da Companhia de Karter entram no pequeno salão um a um, atraindo os olhares da clientela. Karter encontra uma mesa livre, a um canto da estalagem, e seus companheiros se unem a ele. O assento mais próximo da porta foi ocupado por um anão, Signus Ironshield, todo coberto de armadura que mal dava para ver algum resquício de pele. A sua direita sentou-se Laurelyn Vesta, uma humana de cabelos louros e tom de pele tão clara que parecia uma albina. Por último sentou-se Diane Li, uma pequenina halfling, de cabelo castanho curto e vestindo um colete com dezenas de bolsos, cada um para uma situação.
O ambiente dentro da estalagem é diferente do exterior. Do lado de fora parece ser uma estalagem normal, com pessoas cantando e festejando. Os clientes presentes estão conversando, porém muito baixo, quase cochichando. Karter tem a impressão de algo implícito paira no ar, uma sensação de algo de errado, mas de difícil percepção. Outros freguêses o encaram quando cruzam os olhares, e aquilo dá arrepios nele.
Seus colegas iniciaram novamente uma conversa alegre, o anão tirou o capacete para poder conversar. As risadas e o tom alegre destoaram do ambiente, até que um garçom aproximou-se e deu fim ao falatório. Era um homem careca e alto, magro, com diversas manchas vermelhas em sua pele. Algo em sua aparência não agrada muito a quem está vendo.
— Sejam bem-vindos ao Pata de Ganso, o que vocês gostariam de beber? — Perguntou o garçom ao grupo, em um tom de voz vagaroso que apenas refletia sua aparência.
Ao olhar para seus colegas, Karter Norman percebeu que alguns deles estavam boquiabertos com a aparência do garçom. Aproveitando-se de posição de liderança e sua experiência como parte da nobreza, o jovem mago rapidamente faz o pedido, tentando chamar a atenção do grupo para evitar um embaraço de etiqueta, antes que o garçom perceba a gafe.
— Por favor, uma cerveja para cada — Karter Norman começou a fazer os pedidos para seus companheiros. —, e qual a especialidade da casa?
O atendente anota o pedido das bebidas vagarosamente, e responde a pergunta na mesma velocidade.
— Temos uma Sopa de Ganso, nosso prato mais apreciado.
Karter olha rapidamente para o grupo, que ainda está encarando o garçom. Antes que o atendente começa a desviar o olhar para os outros integrantes, o mago dispara.
— Vamos querer a sopa, então. Para os quatro. Obrigado.
O garçom anota com toda sua velocidade. Pergunta se desejam mais alguma coisa, e com a negativa vira-se para a cozinha da estalagem. Karter fica cuidando o movimento do atendente e espera até que ele saia do campo de visão, e que possa falar com seu grupo.
O mago inclina-se para frente e chama a atenção de seus colegas, cochichando.
— Vocês estão malucos? Vão deixar o pobre homem constrangido — Disse Karter. Como líder do grupo, puxou para si a responsabilidade de ser o rosto e a voz da Companhia de Karter, que não à toa leva seu nome, um misto de vaidade e falta de criatividade.
— Tem algo estanho com ele, aquelas manchas vermelhas não são normais. — Disse o anão Signus Ironshield, com toda sua desconfiança e senso de segurança. Não atoa era sempre o mais precavido, sempre atento às rotas de fuga e à segurança do grupo.
— Mas isso é problema dele, não nosso! — Responde Karter, com um tom sério. Ele imaginava que isso seria fruto da paranoia de Signus. Mas não esperava que as outras integrantes também concordassem.
— Aí é que está, dá uma olhada em volta e veja você mesmo. Ele não é o único. — Disse Diane Li, a halfling tinha uma percepção apurada através de muito treinamento. Karter sabia que podia confiar em seu julgamento.
— Os rostos das outras pessoas também possuem manchas avermelhadas — A clériga do grupo, Laurelyn Vesta, também deu seu parecer. —, talvez seja algum tipo de doença, ou pior, uma maldição.
O garçom volta com as cervejas e deposita elas na mesa. Desta vez, Karter consegue perceber melhor as manchas na pele do homem. O desconforto que sentira quando entrara na estalagem poderia estar relacionado a este traço em comum com as outras pessoas. Como Laurelyn dissera, poderia ser algum tipo de doença, ou pior, uma maldição.
O mago se dá por vencido e finalmente pergunta, ainda em tom baixo.
— Vocês têm razão, acho que era isso que eu notei quando entramos que estava me deixando com uma pulga atrás da orelha. Será que isso é contagioso? – Perguntou.
— Teríamos que investigar. Somente pela aparência é difícil julgar — A clériga Laurelyn responde, já pensando em algum plano ou magia de proteção. –, poderia ser tanta coisa.
— Vamos é embora, isso sim! — Disse o anão Signus, sempre precavido.
— Não podemos sair nessa chuva — Disse Karter para o anão. —, entramos aqui justamente para fugir dela, e ainda temos mais dois dias de caminhada até a capital do Reinado, a cidade Valkaria.
— Prefiro enferrujar do que ficar aqui! — Resmungou Signus
— Calma Signus, posso garantir que isso não é Praga Coral. — Disse a halfling Diane, mencionando a terrível doença mágica que assola o reino de Lomatubar, reino que agora faz parte do Império de Tauron, a oeste do Reinado. — Eu já vi pessoalmente, e não é nem um pouco com o que essas pessoas têm.
— É um problema a menos, mas o que essas pessoas têm? — Laurelyn indaga. A curiosidade acendendo uma chama no seu olhar.
A conversa foi interrompida quando o garçom retornou para o salão trazendo os pratos que Karter solicitou. Os pratos com a Sopa de Ganso foram postos diante dos companheiros, que se entreolharam. Havia algo de estranho, algo errado, um sentimento que inundou as entranhas, mas não havia nada de incomum, apenas a sopa. O garçom se retirou e ficou olhando para o grupo discretamente de trás do balcão.
Um momento de hesitação. Karter pegou a colher, mergulhou na sopa e ficou encarando o conteúdo antes de colocar na boca. Algo lhe causava repulsa, mas não sabia o que era. Preparou-se para sorver a sopa, como se estivesse prestes a mergulhar em um lago, saltando de um precipício gigantesco. Fechou os olhos e...
A explosão de sabor inundou a boca e os sentidos de Karter. Havia algo de fato ali, mas não saberia dizer o que era, algum tempero especial, talvez. Também não sabia dizer se era bom, ou ruim, apenas tinha certeza de que aquilo era algo único.
O restante do grupo ficou aguardando um veredito. Diane estava com uma cara de nojo, enquanto Signus estava perplexo com a cena.
— É incrível! — Disse Karter para os outros, incentivando-os a experimentar o prato único. Jamais iriam saborear tal iguaria novamente.
Os outros mergulharam a colher e sorveram a sopa. Em instantes, seus pratos terminaram, e pediram outro para o garçom, que esboçava seu primeiro sorriso.
A noite já caia, e o sono chamava os companheiros para uma noite de descanso. Karter solicitou quatro camas para o estalajadeiro, que lhe deu duas chaves. O grupo subiu as escadas e dividiu-se, Laurelyn e Diane em um quarto, Karter e Signus em outro.
A sensação estranha que tiveram desaparecera antes de dormirem.

(Continua)

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Apresentação

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Então o ano se aproxima de seu final, e eu finalmente consegui um tempo para colocar em prática um projeto que estudo há anos para desenvolver, buscando técnicas e conhecimento, nem que seja para mim mesmo. Hora de me dedicar ao que gostaria de fazer, contar histórias.

Comecei de fato a me aprimorar ao contar histórias quando me dediquei a aprender a mestrar RPG melhor. Das poucas vezes que havia mestrado antes de 2014, não tinha muito conhecimento de como fazer para contar alguma história legal e manter a atenção dos jogadores, e foram sessões bem desastrosas. Tudo mudou quando consegui um novo grupo para jogar, porém, ninguém mestrava, vi uma oportunidade para me aprimorar.

Na época já haviam algumas streams de RPG, como as do AzeCos e GruntarTV, e que maneira melhor de aprender um ofício se não observar e tentar absorver algum conhecimento. Procurei ver como faziam as descrições, ouvi suas dicas, busquei materiais em revistas antigas, reli descrições de combate de meus escritores favoritos. Busquei conhecimento mais técnico sobre o assunto das narrativas, que influenciou o trabalho de conclusão de minha pós-graduação. Fui atrás de guias, manuais e módulos para aprimorar esta técnica de contar histórias.

Hoje, começo a dar um passo além em minha jornada, começarei a mostrar minhas histórias para o mundo. Há inúmeras formas de fazer isto, roteiros, contos, livros, jogos. Tudo tem seu tempo de execução, mas o mais importante é dar um passo de cada vez.

Ilustração: Marc Simonetti